Aula 14 — Módulo 2: Inferência Estatística
O teste correto permuta exatamente aquilo que poderia ter sido sorteado no experimento.
Agora vamos tensionar essa conclusão.
\[ T_{média}=\bar x_{ad}-\bar x_{psa} \]
Ela compara o total médio de exposições por usuário e dá peso alto a usuários extremos.
Isso pode ser desejável se o total agregado de impressões importa.
\[ T_{mediana}=\widetilde x_{ad}-\widetilde x_{psa} \]
Ela compara o usuário típico e resiste à cauda.
Não existe uma estatística universalmente “melhor”: existe uma pergunta bem alinhada.
Remova, por exemplo, 10% de cada cauda e calcule a média restante.
\[ T_{trim}=\bar x^{(10\%)}_{ad}-\bar x^{(10\%)}_{psa} \]
É um compromisso entre eficiência e robustez.
Podemos testar diferenças de:
Não precisamos conhecer uma fórmula fechada para a distribuição nula.
Em cada permutação:
Não se permuta a estatística pronta; permutam-se os rótulos e refaz-se todo o cálculo.
total ads é pós-tratamentotest group é fixado no sorteio. total ads acumula-se durante a campanha.
Anúncio e PSA podem produzir diferentes níveis de interesse e permanência:
\[T\longrightarrow \text{total ads}\longrightarrow Y\]
Se converter encerra ou altera a campanha, a resposta afeta exposições posteriores:
\[T\longrightarrow Y\longrightarrow \text{total ads}\]
Controlar por total ads pode remover parte do efeito total ou selecionar usuários diferentes nos dois grupos.
Exemplos seriam dia de entrada, dispositivo ou histórico do usuário. Podem formar blocos se fizerem parte do sorteio.
total ads, most ads day e most ads hour são construídos a partir da exposição observada. Servem para descrição, mas exigem cautela causal.
most ads day não é o dia da randomização. Estratificar por ele é uma análise exploratória, não a reprodução exata do desenho.
Se o experimento sorteou usuários separadamente por uma variável pré-tratamento, como o dia de entrada, comparar dentro de cada estrato:
Cada rótulo troca de lugar apenas com unidades do mesmo estrato.
Calcule a diferença em cada estrato e combine as comparações:
\[ T=\sum_{s=1}^S w_s\widehat\Delta_s \]
Exemplo
Se a diferença for \(+0{,}5\) p.p. na segunda e \(+0{,}9\) p.p. na terça, com estratos do mesmo tamanho, a combinação é \((0{,}5+0{,}9)/2=+0{,}7\) p.p.
\(\widehat\Delta_s\) é a diferença no estrato \(s\); \(w_s\) é seu peso e os pesos somam 1.
O tratamento foi sorteado separadamente dentro de cada dia. Como os rótulos devem ser permutados?
Se cada usuário vê A e B em momentos distintos, não embaralhe observações livremente.
Sob \(H_0\), troque A/B dentro de cada usuário ou inverta aleatoriamente o sinal da diferença individual.
Exemplo
Cada aluno resolve uma tarefa com e sem dica. As duas notas do mesmo aluno formam um par. A troca permitida apenas decide qual nota recebe o rótulo “com dica”.
Se escolas, cidades ou contas foram sorteadas, pessoas dentro do mesmo cluster não são permutáveis individualmente.
Permute o tratamento entre clusters e calcule a estatística com todos os indivíduos associados.
Exemplo
Em oito escolas, quatro recebem um novo método de ensino. O sorteio ocorreu entre as oito escolas; todos os alunos de uma escola devem mudar de rótulo juntos.
O resultado de uma unidade passa a depender também do tratamento recebido por outras unidades.
Exemplo
Em uma rede social, um usuário tratado recebe um recurso de convite e chama um amigo do grupo controle. O comportamento do amigo foi afetado pelo tratamento de outra pessoa.
Uma permutação individual que ignora a rede pode representar um experimento que nunca ocorreu.
Tratamento: \(30/100=30\%\)
Controle: \(5/100=5\%\)
Se saem mais alunos com baixo desempenho no tratamento, a média dos restantes sobe por seleção.
Reporte as perdas por grupo e teste cenários plausíveis para os resultados ausentes.
Permutar apenas quem permaneceu não recupera a comparabilidade inicial.
O algoritmo troca os grupos, mas não altera os valores observados.
| pessoa | dados observados | após permutar os rótulos |
|---|---|---|
| Ana | tratamento, resultado 10 | controle, resultado 10 |
| Bruno | controle, resultado 4 | tratamento, resultado 4 |
Quando essa nova tabela representa um experimento que realmente poderia ter ocorrido?
Somente quando mudar o tratamento não mudaria o resultado de nenhuma pessoa. Essa é a razão para introduzir a nula estrita de Fisher.
\[H_0^F:Y_i(1)=Y_i(0)\quad\text{para todo }i\]
Cada unidade teria o mesmo resultado sob tratamento e controle. Portanto, podemos trocar seu grupo e manter o valor observado.
\[H_0^\mu:\frac1n\sum_i\tau_i=0, \qquad \tau_i=Y_i(1)-Y_i(0)\]
Os efeitos individuais podem existir. Por exemplo, \(+4\) para Ana e \(-4\) para Bruno produzem efeito médio zero.
\(Y_i(1)\) e \(Y_i(0)\) são os resultados potenciais da unidade \(i\) sob tratamento e controle. A nula estrita implica efeito médio zero, mas o contrário não é verdadeiro.
Se Ana mudar de grupo, seu resultado continuará 10. Manter os resultados fixos em todas as atribuições é coerente.
Conclusão: o teste de randomização é exato.
Ana pode melhorar e Bruno piorar. Ao trocar seus grupos, os resultados poderiam mudar, mas não observamos esses valores alternativos.
Conclusão: a permutação simples não é automaticamente exata.
Para testar efeito médio zero, uma opção é permutar uma estatística studentizada:
\[T=\frac{\bar Y_1-\bar Y_0}{\sqrt{s_1^2/n_1+s_0^2/n_0}}.\]
\(\bar Y_g\), \(s_g^2\) e \(n_g\) são a média, a variância amostral e o tamanho do grupo \(g\). A validade costuma ser assintótica.
Use quando a pergunta for:
O tratamento deixou todas as unidades inalteradas?
É adequada para um teste de randomização exato, especialmente quando conhecemos o mecanismo de sorteio e queremos detectar qualquer efeito individual.
Rejeitá-la indica que alguma unidade foi afetada. Isso não garante que o efeito médio seja diferente de zero.
Use quando a pergunta for:
O tratamento altera o resultado em média?
É a pergunta usual em experimentos A/B e decisões de política ou produto, nos quais efeitos individuais podem ser diferentes.
Use uma análise apropriada ao efeito médio, como a estatística studentizada, e reporte também o intervalo de confiança.
A hipótese deve seguir a pergunta científica. A exatidão do teste não compensa testar uma hipótese diferente daquela que interessa.
| unidade | controle \(Y_i(0)\) | tratamento \(Y_i(1)\) | efeito \(\tau_i\) |
|---|---|---|---|
| Ana | 6 | 10 | \(+4\) |
| Bruno | 10 | 6 | \(-4\) |
Exige \(\tau_i=0\) para cada unidade.
\[+4\neq0\qquad\text{e}\qquad-4\neq0\]
Conclusão: a nula estrita é falsa. O tratamento afeta Ana e Bruno.
Exige que a média dos efeitos seja zero.
\[\bar\tau=\frac{(+4)+(-4)}{2}=0\]
Conclusão: a nula de efeito médio é verdadeira. Não há ganho médio.
O mesmo conjunto de efeitos contradiz a nula estrita e satisfaz a nula média. Elas não são duas maneiras equivalentes de formular a mesma pergunta.
Precisamos de:
Mesmo um experimento interno impecável pode não generalizar para:
Os dados mostram aumento claro de conversão, mas a recomendação ainda depende de:
Antes de confiar em um teste de permutação, pergunte:
O que foi sorteado? O que pode ser trocado? Qual efeito estamos estimando? A decisão mudaria com um efeito pequeno?
Permutação é uma linguagem para transformar o desenho experimental em uma distribuição nula — e não um atalho que dispensa pensar no desenho.
ICD: Aula 14 — Permutação e desenho experimentalvoltar para a Aula