Estimadores com Palmer Penguins

Notebook das Aulas 08 e 09

Objetivos

Este notebook usa a base Palmer Penguins para transformar população, amostra, estimador, viés e variância em objetos que podemos simular.

Ao final, você deve conseguir:

  • distinguir parâmetro, estimador e estimativa;
  • construir uma distribuição amostral por simulação;
  • estimar viés, variância, erro padrão e risco;
  • explicar o efeito do tamanho da amostra;
  • comparar média, mediana e média aparada sob diferentes perdas.

Como estudar este capítulo

As Aulas 08 e 09 respondem a duas perguntas complementares. Primeiro: como uma estatística calculada em uma amostra se comporta se repetirmos a amostragem? Depois: como escolher entre estimadores que cometem erros de maneiras diferentes? A distribuição amostral liga essas duas perguntas.

Começaremos distinguindo parâmetro, estimador e estimativa. A simulação transforma o estimador em uma variável: extraímos muitas amostras, calculamos uma estimativa em cada uma e observamos sua distribuição. O centro revela viés; a dispersão revela variabilidade; a perda traduz o custo de cada erro; e o risco combina esses elementos em um desempenho médio.

A base completa será tratada como uma população didática. Isso permite conhecer o parâmetro verdadeiro e verificar os estimadores, algo que normalmente não é possível em um estudo real. Ao ler os resultados, separe sempre o que ocorre nesta população construída do princípio estatístico que a simulação pretende ilustrar.

Transição da Aula 08 para a Aula 09

A Aula 08 concentra-se em amostragem, distribuição amostral, viés, variância e erro padrão. A Aula 09 parte desses objetos para comparar estimadores sob funções de perda, robustez e risco. O segundo assunto depende do primeiro: não existe “melhor estimador” sem especificar o processo de dados e o tipo de erro que queremos evitar.

1. Download da base

O dataset está disponível no Kaggle sob licença CC0. Em um ambiente novo, instale kagglehub, pandas, numpy, matplotlib, seaborn e scipy.

import kagglehub

path = kagglehub.dataset_download(
    "parulpandey/palmer-archipelago-antarctica-penguin-data"
)
print(path)
Downloading to /home/runner/.cache/kagglehub/datasets/parulpandey/palmer-archipelago-antarctica-penguin-data/1.archive...
Extracting files...
/home/runner/.cache/kagglehub/datasets/parulpandey/palmer-archipelago-antarctica-penguin-data/versions/1

2. Preparação

from pathlib import Path

import matplotlib.pyplot as plt
import numpy as np
import pandas as pd
import seaborn as sns
from scipy.stats import trim_mean

sns.set_theme(style="whitegrid", context="notebook")
rng = np.random.default_rng(20260824)

csv_files = sorted(Path(path).rglob("penguins_size.csv"))
if not csv_files:
    csv_files = sorted(Path(path).rglob("*.csv"))

penguins = pd.read_csv(csv_files[0])
penguins = penguins.rename(columns={
    "culmen_length_mm": "bill_length_mm",
    "culmen_depth_mm": "bill_depth_mm",
})
penguins = penguins.dropna(subset=["body_mass_g", "species", "island"])
penguins.head()
species island bill_length_mm bill_depth_mm flipper_length_mm body_mass_g sex
0 Adelie Torgersen 39.1 18.7 181.0 3750.0 MALE
1 Adelie Torgersen 39.5 17.4 186.0 3800.0 FEMALE
2 Adelie Torgersen 40.3 18.0 195.0 3250.0 FEMALE
4 Adelie Torgersen 36.7 19.3 193.0 3450.0 FEMALE
5 Adelie Torgersen 39.3 20.6 190.0 3650.0 MALE

3. Conhecendo a população didática

Nesta atividade, trataremos todos os registros válidos como uma população conhecida. Isso permite comparar cada estimativa com o valor real.

massas = penguins["body_mass_g"].to_numpy()
mu = massas.mean()
sigma = massas.std(ddof=0)

print(f"N = {len(massas)}")
print(f"Média populacional: {mu:.1f} g")
print(f"Desvio padrão populacional: {sigma:.1f} g")
penguins.groupby("species")["body_mass_g"].agg(["count", "mean", "std"])
N = 342
Média populacional: 4201.8 g
Desvio padrão populacional: 800.8 g
count mean std
species
Adelie 151 3700.662252 458.566126
Chinstrap 68 3733.088235 384.335081
Gentoo 123 5076.016260 504.116237
NotaInterpretação

Separe parâmetro, estimador e estimativa observada. A qualidade do estimador deve ser avaliada em amostras repetidas por viés, variância e erro quadrático, não por um único resultado favorável.

Distribuição da massa corporal dos pinguins por espécie.

Variância populacional e amostral

Como estamos tratando os registros completos como população didática, usamos ddof=0 e dividimos por \(N\). Quando uma amostra é usada para estimar a variância de uma população, usamos \(n-1\):

\[ \sigma^2=\frac{1}{N}\sum_{i=1}^{N}(x_i-\mu)^2, \qquad s^2=\frac{1}{n-1}\sum_{i=1}^{n}(x_i-\bar x)^2. \]

Há duas justificativas complementares. Os desvios em torno de \(\bar x\) somam zero, deixando apenas \(n-1\) graus de liberdade. Além disso:

\[ \mathbb E\!\left[\sum_{i=1}^{n}(X_i-\bar X)^2\right]=(n-1)\sigma^2, \]

portanto dividir por \(n-1\) remove o viés para baixo.

amostra_variancia = rng.choice(massas, size=20, replace=False)
print("Dividindo por n:   ", amostra_variancia.var(ddof=0))
print("Dividindo por n-1: ", amostra_variancia.var(ddof=1))
Dividindo por n:    585092.1875
Dividindo por n-1:  615886.5131578947
NotaInterpretação

A variância com divisor n descreve o conjunto observado. Quando a média populacional é estimada pela média amostral, perde-se um grau de liberdade e o divisor n−1 corrige o viés para baixo.

4. Uma amostra, uma estimativa

amostra = rng.choice(massas, size=20, replace=False)
x_barra = amostra.mean()

print(f"Parâmetro μ: {mu:.1f} g")
print(f"Estimativa x̄: {x_barra:.1f} g")
print(f"Erro observado: {x_barra - mu:.1f} g")
Parâmetro μ: 4201.8 g
Estimativa x̄: 4293.8 g
Erro observado: 92.0 g

Execute a célula novamente com outra semente. A estimativa muda porque a amostra muda; o parâmetro permanece fixo.

NotaInterpretação

O erro exibido pertence a uma amostra particular: ele pode ser positivo ou negativo e muda quando repetimos a seleção. Essa variabilidade não transforma o parâmetro em algo aleatório; ela descreve a incerteza do procedimento amostral.

5. Distribuição amostral

def simular_medias(valores, n, repeticoes=5000):
    return np.array([
        rng.choice(valores, size=n, replace=True).mean()
        for _ in range(repeticoes)
    ])

medias_30 = simular_medias(massas, n=30)

sns.histplot(medias_30, bins=30)
plt.axvline(mu, color="darkorange", linewidth=3)
plt.xlabel("Média amostral (g)")
plt.show()

vies = medias_30.mean() - mu
variancia = medias_30.var(ddof=1)
erro_padrao = medias_30.std(ddof=1)

print(f"Viés estimado: {vies:.1f} g")
print(f"Variância estimada: {variancia:.1f} g²")
print(f"Erro padrão estimado: {erro_padrao:.1f} g")
Viés estimado: 1.4 g
Variância estimada: 21925.4 g²
Erro padrão estimado: 148.1 g
NotaInterpretação

O centro das médias simuladas deve ficar próximo de \(\mu\), sinal de pouco viés. Já o desvio padrão dessas médias é o erro padrão: ele mede quanto a estimativa mudaria entre amostras do mesmo tamanho.

5.1 Proporções: Binomial ou Hipergeométrica?

Para estudar a proporção de pinguins Gentoo, defina \(Y_i=1\) quando o indivíduo selecionado é Gentoo e \(Y_i=0\) caso contrário. Cada observação isolada tem distribuição Bernoulli. A distribuição da soma

\[ K=\sum_{i=1}^{n}Y_i \]

depende, porém, do desenho amostral. Se os \(Y_i\) forem independentes e tiverem a mesma probabilidade \(p\), então \(K\sim\operatorname{Binomial}(n,p)\). Isso ocorre em amostragem com reposição ou quando pensamos em observações independentes de um processo gerador.

Se retirarmos \(n\) indivíduos sem reposição de uma população finita com \(N\) indivíduos e \(M\) Gentoo, a distribuição exata será

\[ K\sim\operatorname{Hipergeométrica}(N,M,n), \qquad P(K=k)=\frac{\binom{M}{k}\binom{N-M}{n-k}}{\binom{N}{n}}. \]

A diferença aparece porque, sem reposição, cada seleção altera a composição da população restante. A média é a mesma nos dois modelos, \(E[K]=np\), mas a variância hipergeométrica contém a correção para população finita:

\[ \operatorname{Var}(K) =np(1-p)\frac{N-n}{N-1}. \]

especies = penguins["species"].to_numpy()
N = len(especies)
M = np.sum(especies == "Gentoo")
n = 40
p = M / N
repeticoes = 5000

sem_reposicao = np.array([
    np.sum(rng.choice(especies, size=n, replace=False) == "Gentoo")
    for _ in range(repeticoes)
])
com_reposicao = np.array([
    np.sum(rng.choice(especies, size=n, replace=True) == "Gentoo")
    for _ in range(repeticoes)
])

pd.DataFrame({
    "modelo": ["sem reposição", "com reposição"],
    "média simulada": [sem_reposicao.mean(), com_reposicao.mean()],
    "variância simulada": [sem_reposicao.var(ddof=1), com_reposicao.var(ddof=1)],
    "variância teórica": [
        n * p * (1 - p) * (N - n) / (N - 1),
        n * p * (1 - p),
    ],
}).round(3)
modelo média simulada variância simulada variância teórica
0 sem reposição 14.363 8.112 8.158
1 com reposição 14.368 9.359 9.212
NotaInterpretação

As duas contagens têm praticamente a mesma média. Sem reposição, contudo, a variabilidade é menor: a correção \((N-n)/(N-1)\) registra a dependência entre as seleções. Quando \(N\) é muito grande em relação a \(n\), essa correção fica próxima de 1 e a Binomial se torna uma boa aproximação da Hipergeométrica.

6. Tamanho da amostra

for n in [10, 30, 80]:
    estimativas = simular_medias(massas, n=n)
    sns.kdeplot(estimativas, label=f"n = {n}")

plt.axvline(mu, color="black", linestyle="--")
plt.xlabel("Média amostral (g)")
plt.legend()
plt.show()

Compare o erro padrão empírico com a fórmula:

for n in [10, 30, 80]:
    empirico = simular_medias(massas, n=n).std(ddof=1)
    teorico = sigma / np.sqrt(n)
    print(f"n={n:>2}: empírico={empirico:6.1f} | σ/√n={teorico:6.1f}")
n=10: empírico= 251.8 | σ/√n= 253.2
n=30: empírico= 148.2 | σ/√n= 146.2
n=80: empírico=  90.0 | σ/√n=  89.5
NotaInterpretação

Ao aumentar \(n\), as distribuições ficam mais estreitas sem mudar substancialmente de centro. A proximidade entre os valores empíricos e \(\sigma/\sqrt n\) confirma a queda do erro padrão na razão inversa da raiz do tamanho amostral.

7. Uma amostra maior pode continuar enviesada

Agora selecionaremos apenas pinguins Gentoo, embora o parâmetro ainda seja a média de todas as espécies.

massas_gentoo = penguins.loc[
    penguins["species"] == "Gentoo", "body_mass_g"
].to_numpy()

aleatorias = simular_medias(massas, n=30)
enviesadas = simular_medias(massas_gentoo, n=30)

print(f"Centro das amostras aleatórias: {aleatorias.mean():.1f} g")
print(f"Centro das amostras Gentoo: {enviesadas.mean():.1f} g")
print(f"Parâmetro de interesse: {mu:.1f} g")
Centro das amostras aleatórias: 4201.6 g
Centro das amostras Gentoo: 5072.9 g
Parâmetro de interesse: 4201.8 g

Comparação entre amostragem aleatória e amostragem restrita a Gentoo.

NotaInterpretação

A distribuição obtida apenas com Gentoo pode ser estreita e, ainda assim, ficar sistematicamente afastada do parâmetro de todas as espécies. Mais observações reduzem variância; não corrigem uma regra de seleção que representa a população errada.

8. Funções de perda

dados = np.array([3100, 3300, 3500, 3700, 3900, 4200, 6100])

def perda_quadratica(theta, valores):
    return np.mean((theta - valores) ** 2)

def perda_absoluta(theta, valores):
    return np.mean(np.abs(theta - valores))

print(f"Média: {dados.mean():.1f} g")
print(f"Mediana: {np.median(dados):.1f} g")
Média: 3971.4 g
Mediana: 3700.0 g

Para a perda quadrática,

\[ \frac{d}{d\theta}\frac1n\sum_i(\theta-x_i)^2 =\frac2n\left(n\theta-\sum_i x_i\right). \]

Igualar a derivada a zero fornece \(\theta=\bar x\); a segunda derivada é \(2>0\), confirmando o mínimo. Para a perda absoluta, a inclinação é negativa quando há mais observações à direita e positiva quando há mais à esquerda. Ela cruza zero nas medianas.

Perdas quadrática e absoluta em função da estimativa.

NotaInterpretação

A perda quadrática cresce rapidamente com erros grandes e atinge o mínimo na média. A perda absoluta cresce linearmente e é minimizada pela mediana; por isso, ela é menos dominada pelo valor extremo de 6.100 g.

8.1 Quando a direção do erro também importa

As perdas anteriores são simétricas: errar duas unidades para baixo ou para cima produz o mesmo custo. Isso nem sempre representa o problema real. Se \(a\) é a estimativa e \(x\) é o valor real, definimos o erro por

\[ e=a-x. \]

Assim, \(e<0\) significa subestimação, \(e>0\) significa superestimação e \(e=0\) significa acerto. Suponha que uma subestimação custe três vezes mais que uma superestimação de mesma magnitude. Uma perda possível é

\[ L(e)= \begin{cases} 3e^2, & e<0,\\ e^2, & e\geq 0. \end{cases} \]

Por exemplo, \(L(-2)=12\), enquanto \(L(2)=4\). A magnitude do erro é a mesma, mas sua consequência não é.

Considere agora os três valores \(1\), \(2\) e \(3\). Sob perda quadrática simétrica, o centro ótimo é a média, \(a^*=2\). Com a perda assimétrica acima, um candidato entre \(2\) e \(3\) superestima os valores \(1\) e \(2\), mas subestima o valor \(3\). Portanto, sua perda total é

\[ R(a)=(a-1)^2+(a-2)^2+3(a-3)^2, \qquad 2<a<3, \]

em que \(R(a)\) é o risco empírico, isto é, a soma das perdas nos três valores. Derivando em relação à estimativa \(a\),

\[ \begin{aligned} R'(a) &=2(a-1)+2(a-2)+6(a-3)\\ &=10a-24. \end{aligned} \]

Igualando a derivada a zero,

\[ 10a-24=0 \quad\Longrightarrow\quad a^*=2{,}4. \]

O resultado está de fato no intervalo usado na derivação, \(2<a<3\). A solução se desloca acima da média porque estimativas baixas ficam mais expostas ao erro que recebeu peso três. O procedimento aceita alguma superestimação adicional para reduzir subestimações mais caras.

NotaInterpretação

A melhor estimativa não depende apenas dos dados. Ela depende também da função de perda, que traduz as consequências de cada decisão. Sob perda quadrática assimétrica, o ótimo é chamado de expectil; a média é o caso simétrico.

9. Comparando estimadores pelo risco

def calcular_estimativas(valores, n=20, repeticoes=5000):
    amostras = rng.choice(valores, size=(repeticoes, n), replace=True)
    return {
        "média": amostras.mean(axis=1),
        "mediana": np.median(amostras, axis=1),
        "média aparada 10%": np.array([
            trim_mean(amostra, proportiontocut=0.10)
            for amostra in amostras
        ]),
    }

estimadores = calcular_estimativas(massas)

resultados = []
for nome, valores in estimadores.items():
    vies = valores.mean() - mu
    variancia = valores.var(ddof=0)
    mse = np.mean((valores - mu) ** 2)
    mae = np.mean(np.abs(valores - mu))
    resultados.append({
        "estimador": nome,
        "viés": vies,
        "variância": variancia,
        "MSE": mse,
        "MAE": mae,
        "viés² + variância": vies ** 2 + variancia,
    })

pd.DataFrame(resultados)
estimador viés variância MSE MAE viés² + variância
0 média -2.584636 33427.750372 33434.430716 146.564180 33434.430716
1 mediana -133.541886 70659.648594 88493.083901 252.003202 88493.083901
2 média aparada 10% -44.949698 40759.446716 42779.922108 167.543514 42779.922108
NotaInterpretação

O MSE combina viés e variância: \(\operatorname{MSE}=\operatorname{viés}^2+\operatorname{variância}\). Assim, o melhor estimador depende da distribuição e da perda adotada; robustez pode compensar uma pequena perda de eficiência quando há caudas ou valores extremos.

10. Investigue

  1. Troque n=20 por n=10, n=50 e n=100. O que muda?
  2. Restrinja a população a uma única espécie. Qual estimador tem menor MSE?
  3. Adicione valores extremos a 5% das amostras. A média continua vencendo?
  4. Compare o resultado usando perda absoluta em vez de quadrática.
  5. Explique por que aumentar \(n\) reduz variância, mas não corrige seleção enviesada.

Fonte

Gorman, K. B.; Williams, T. D.; Fraser, W. R. (2014). Ecological Sexual Dimorphism and Environmental Variability within a Community of Antarctic Penguins. Dados distribuídos sob licença CC0 e disponibilizados no Kaggle em parulpandey/palmer-archipelago-antarctica-penguin-data.

Guia teórico consolidado das Aulas 08 e 09

Parâmetro, estimador e estimativa

O parâmetro é uma característica fixa da população ou do processo gerador. O estimador é uma regra aleatória aplicada à amostra. A estimativa é o valor observado dessa regra em uma amostra específica. A distribuição amostral descreve como o estimador variaria se repetíssemos o desenho de amostragem.

Um estimador é não viesado quando \(\mathbb E[\widehat\theta]=\theta\), consistente quando se aproxima de \(\theta\) à medida que \(n\) cresce e preciso quando sua variância é pequena. Erro padrão é o desvio-padrão da distribuição amostral; não é o desvio-padrão dos indivíduos.

Métodos para construir estimadores

Depois de definir o parâmetro de interesse, ainda precisamos escolher uma regra para estimá-lo. Há diferentes princípios de construção. Eles podem produzir a mesma fórmula em um problema simples, mas partem de objetivos distintos e podem divergir em outros modelos.

Método dos momentos

Um momento é um resumo de uma distribuição. O primeiro momento é \(\mathbb E[X]\); momentos de ordens maiores ajudam a descrever dispersão e forma. O método dos momentos iguala momentos teóricos, que dependem dos parâmetros, aos momentos calculados na amostra.

Se um modelo possui média \(\mathbb E[X]=\mu\), igualamos

\[ \mathbb E[X]=\mu \qquad\text{a}\qquad \frac1n\sum_{i=1}^{n}x_i=\bar x. \]

Isso fornece \(\widehat\mu_{MM}=\bar x\). O objetivo é encontrar parâmetros que façam características importantes do modelo coincidir com características dos dados. O método costuma ser simples e transparente, mas não garante, por si só, o estimador de menor variância.

Máxima verossimilhança

A máxima verossimilhança começa com um modelo probabilístico \(f(x\mid\theta)\). Para dados independentes, a verossimilhança é

\[ \mathcal L(\theta;x_1,\ldots,x_n) =\prod_{i=1}^{n}f(x_i\mid\theta). \]

Aqui, \(x_1,\ldots,x_n\) são os dados observados, \(\theta\) é o parâmetro candidato e \(f(x_i\mid\theta)\) mede a compatibilidade da observação com o modelo. O método escolhe

\[ \widehat\theta_{MV} =\arg\max_{\theta}\mathcal L(\theta;x_1,\ldots,x_n). \]

Seu objetivo é encontrar o valor do parâmetro sob o qual os dados observados são mais compatíveis com o modelo assumido. A verossimilhança não é a probabilidade de \(\theta\): os dados ficam fixos e comparamos diferentes valores do parâmetro. A Aula 18 desenvolverá esse princípio com mais cuidado.

Minimização de uma perda ou de um critério

Outra possibilidade é escolher diretamente o valor que minimiza uma penalização:

\[ \widehat\theta =\arg\min_a\sum_{i=1}^{n}L(a,x_i), \]

em que \(a\) é um valor candidato e \(L(a,x_i)\) é o custo de representar \(x_i\) por \(a\). Sob perda quadrática, o ótimo é a média; sob perda absoluta, é a mediana. O objetivo aqui é alinhar a estimativa ao tipo de erro relevante para a decisão. Mínimos quadrados, estudados posteriormente em regressão, seguem essa lógica.

Por que os métodos às vezes concordam?

Para estimar a média de um modelo Normal, a média amostral aparece por três caminhos:

  • iguala a média teórica à média observada no método dos momentos;
  • maximiza a verossimilhança Normal;
  • minimiza a soma dos erros quadráticos.

Essa coincidência não torna os princípios equivalentes. O método dos momentos busca compatibilidade entre resumos; máxima verossimilhança usa o modelo probabilístico completo; mínima perda formaliza o custo dos erros. Em outros problemas, eles podem gerar estimadores diferentes.

NotaInterpretação

Antes de comparar estimadores, pergunte qual parâmetro está sendo estimado, qual modelo foi assumido e qual critério definiu a regra. “Como calcular” e “por que essa regra é adequada” são perguntas diferentes.

Há ainda outros princípios. Na estimação bayesiana, por exemplo, combinamos a verossimilhança com uma distribuição a priori e resumimos a distribuição a posteriori segundo uma perda. Essa abordagem não será formalizada nesta aula.

Perda quadrática e média

Para escolher um centro \(a\) pela perda quadrática,

\[L(a)=\sum_{i=1}^n(x_i-a)^2.\]

Derivando:

\[L'(a)=2\sum_{i=1}^n(a-x_i)=2\left(na-\sum_i x_i\right).\]

A condição \(L'(a)=0\) fornece \(a=\bar x\). Como \(L''(a)=2n>0\), a média é o mínimo global.

Perda absoluta, MAE e mediana

Para um valor \(a\) usado para representar \(n\) observações, o erro absoluto médio (Mean Absolute Error, MAE) é

\[ \operatorname{MAE}(a) =\frac{1}{n}\sum_{i=1}^{n}|x_i-a|. \]

O fator \(1/n\) muda a escala, mas não o ponto que minimiza a soma. A função não é diferenciável nos dados. Fora desses pontos, cada observação à esquerda contribui inclinação \(+1\) e cada observação à direita contribui \(-1\). A inclinação muda de negativa para positiva quando há ao menos metade das observações de cada lado: essa é precisamente a condição de mediana.

Quando avaliamos um estimador \(\widehat\theta\) em amostragens repetidas, usamos a versão populacional

\[ \operatorname{MAE}(\widehat\theta) =\mathbb E\left[|\widehat\theta-\theta|\right]. \]

Se realizamos \(B\) simulações e obtemos \(\widehat\theta^{(1)},\ldots,\widehat\theta^{(B)}\), estimamos essa esperança por

\[ \widehat{\operatorname{MAE}} =\frac{1}{B}\sum_{b=1}^{B}|\widehat\theta^{(b)}-\theta|. \]

O MAE permanece na unidade original do parâmetro e penaliza erros linearmente. Ele costuma ser menos dominado por erros extremos do que o MSE. Em contrapartida, não admite a decomposição simples em variância mais viés ao quadrado que veremos a seguir.

Risco, viés e variância

Sob perda quadrática, o risco de \(\widehat\theta\) para estimar \(\theta\) é

\[ \operatorname{MSE}(\widehat\theta) =\mathbb E[(\widehat\theta-\theta)^2]. \]

Aqui, \(\theta\) é o parâmetro fixo, \(\widehat\theta\) é o estimador aleatório e a esperança considera todas as amostras que poderiam ser obtidas pelo mesmo procedimento. Para decompor o erro, escreva

\[m=\mathbb E[\widehat\theta].\]

Somar e subtrair \(m\) não altera a diferença:

\[ \widehat\theta-\theta =(\widehat\theta-m)+(m-\theta). \]

O primeiro termo mede a oscilação do estimador em torno de seu próprio valor esperado. O segundo é o viés, pois \(m-\theta=\mathbb E[\widehat\theta]-\theta\). Elevando ao quadrado e tomando a esperança,

\[ \begin{aligned} \mathbb E[(\widehat\theta-\theta)^2] &=\mathbb E\left[ (\widehat\theta-m)^2 +2(\widehat\theta-m)(m-\theta) +(m-\theta)^2 \right]\\ &=\mathbb E[(\widehat\theta-m)^2] +2(m-\theta)\mathbb E[\widehat\theta-m] +(m-\theta)^2. \end{aligned} \]

Agora aparecem três termos:

  1. \(\mathbb E[(\widehat\theta-m)^2]=\operatorname{Var}(\widehat\theta)\);
  2. \(\mathbb E[\widehat\theta-m]=\mathbb E[\widehat\theta]-m=m-m=0\);
  3. \((m-\theta)^2=\operatorname{Bias}(\widehat\theta)^2\).

Portanto,

\[ \boxed{ \operatorname{MSE}(\widehat\theta) =\operatorname{Var}(\widehat\theta) +\operatorname{Bias}(\widehat\theta)^2 }. \]

NotaInterpretação

O MSE separa duas fontes de erro. A variância mede quanto a estimativa muda entre amostras; o viés mede quanto o centro dessas estimativas fica afastado do parâmetro. O termo cruzado não é ignorado: ele é exatamente zero porque os desvios em torno do próprio valor esperado têm média zero.

Um pequeno viés pode ser aceitável se reduzir bastante a variância. A melhor escolha depende da população, da perda e do custo dos erros. Robustez descreve sensibilidade à contaminação; a mediana possui ponto de ruptura muito maior que a média, enquanto a média aparada oferece um compromisso.

O desenho não é curado por n

Aumentar \(n\) reduz variabilidade aleatória, mas não corrige viés de seleção, mensuração inadequada ou dependência ignorada. Propriedades algébricas do estimador só têm valor quando a amostra representa o alvo da pergunta.

Questões de revisão das Aulas 08 e 09

  1. Ao repetir amostras aleatórias, o que varia: o parâmetro, o estimador ou a estimativa?
  2. Por que aumentar \(n\) não corrige uma amostra formada apenas por Gentoo quando o alvo inclui todas as espécies?
  3. Quais centros minimizam, respectivamente, perda quadrática e perda absoluta?
  4. Como um estimador com viés pequeno ainda pode apresentar MSE alto?
Respostas comentadas
  1. O parâmetro permanece fixo, o estimador é a regra e a estimativa obtida varia entre amostras.
  2. Mais dados reduzem a variância em torno da média de Gentoo, mas não corrigem a população representada.
  3. A média minimiza perda quadrática; a mediana minimiza perda absoluta.
  4. Porque \(\operatorname{MSE}=\operatorname{viés}^2+\operatorname{variância}\) e a variância pode dominar.