Este notebook usa a base Palmer Penguins para transformar população, amostra, estimador, viés e variância em objetos que podemos simular.
Ao final, você deve conseguir:
distinguir parâmetro, estimador e estimativa;
construir uma distribuição amostral por simulação;
estimar viés, variância, erro padrão e risco;
explicar o efeito do tamanho da amostra;
comparar média, mediana e média aparada sob diferentes perdas.
Como estudar este capítulo
As Aulas 08 e 09 respondem a duas perguntas complementares. Primeiro: como uma estatística calculada em uma amostra se comporta se repetirmos a amostragem? Depois: como escolher entre estimadores que cometem erros de maneiras diferentes? A distribuição amostral liga essas duas perguntas.
Começaremos distinguindo parâmetro, estimador e estimativa. A simulação transforma o estimador em uma variável: extraímos muitas amostras, calculamos uma estimativa em cada uma e observamos sua distribuição. O centro revela viés; a dispersão revela variabilidade; a perda traduz o custo de cada erro; e o risco combina esses elementos em um desempenho médio.
A base completa será tratada como uma população didática. Isso permite conhecer o parâmetro verdadeiro e verificar os estimadores, algo que normalmente não é possível em um estudo real. Ao ler os resultados, separe sempre o que ocorre nesta população construída do princípio estatístico que a simulação pretende ilustrar.
Transição da Aula 08 para a Aula 09
A Aula 08 concentra-se em amostragem, distribuição amostral, viés, variância e erro padrão. A Aula 09 parte desses objetos para comparar estimadores sob funções de perda, robustez e risco. O segundo assunto depende do primeiro: não existe “melhor estimador” sem especificar o processo de dados e o tipo de erro que queremos evitar.
1. Download da base
O dataset está disponível no Kaggle sob licença CC0. Em um ambiente novo, instale kagglehub, pandas, numpy, matplotlib, seaborn e scipy.
N = 342
Média populacional: 4201.8 g
Desvio padrão populacional: 800.8 g
count
mean
std
species
Adelie
151
3700.662252
458.566126
Chinstrap
68
3733.088235
384.335081
Gentoo
123
5076.016260
504.116237
NotaInterpretação
Separe parâmetro, estimador e estimativa observada. A qualidade do estimador deve ser avaliada em amostras repetidas por viés, variância e erro quadrático, não por um único resultado favorável.
Variância populacional e amostral
Como estamos tratando os registros completos como população didática, usamos ddof=0 e dividimos por \(N\). Quando uma amostra é usada para estimar a variância de uma população, usamos \(n-1\):
portanto dividir por \(n-1\) remove o viés para baixo.
amostra_variancia = rng.choice(massas, size=20, replace=False)print("Dividindo por n: ", amostra_variancia.var(ddof=0))print("Dividindo por n-1: ", amostra_variancia.var(ddof=1))
Dividindo por n: 585092.1875
Dividindo por n-1: 615886.5131578947
NotaInterpretação
A variância com divisor n descreve o conjunto observado. Quando a média populacional é estimada pela média amostral, perde-se um grau de liberdade e o divisor n−1 corrige o viés para baixo.
Parâmetro μ: 4201.8 g
Estimativa x̄: 4293.8 g
Erro observado: 92.0 g
Execute a célula novamente com outra semente. A estimativa muda porque a amostra muda; o parâmetro permanece fixo.
NotaInterpretação
O erro exibido pertence a uma amostra particular: ele pode ser positivo ou negativo e muda quando repetimos a seleção. Essa variabilidade não transforma o parâmetro em algo aleatório; ela descreve a incerteza do procedimento amostral.
Viés estimado: 1.4 g
Variância estimada: 21925.4 g²
Erro padrão estimado: 148.1 g
NotaInterpretação
O centro das médias simuladas deve ficar próximo de \(\mu\), sinal de pouco viés. Já o desvio padrão dessas médias é o erro padrão: ele mede quanto a estimativa mudaria entre amostras do mesmo tamanho.
5.1 Proporções: Binomial ou Hipergeométrica?
Para estudar a proporção de pinguins Gentoo, defina \(Y_i=1\) quando o indivíduo selecionado é Gentoo e \(Y_i=0\) caso contrário. Cada observação isolada tem distribuição Bernoulli. A distribuição da soma
\[
K=\sum_{i=1}^{n}Y_i
\]
depende, porém, do desenho amostral. Se os \(Y_i\) forem independentes e tiverem a mesma probabilidade \(p\), então \(K\sim\operatorname{Binomial}(n,p)\). Isso ocorre em amostragem com reposição ou quando pensamos em observações independentes de um processo gerador.
Se retirarmos \(n\) indivíduos sem reposição de uma população finita com \(N\) indivíduos e \(M\) Gentoo, a distribuição exata será
A diferença aparece porque, sem reposição, cada seleção altera a composição da população restante. A média é a mesma nos dois modelos, \(E[K]=np\), mas a variância hipergeométrica contém a correção para população finita:
As duas contagens têm praticamente a mesma média. Sem reposição, contudo, a variabilidade é menor: a correção \((N-n)/(N-1)\) registra a dependência entre as seleções. Quando \(N\) é muito grande em relação a \(n\), essa correção fica próxima de 1 e a Binomial se torna uma boa aproximação da Hipergeométrica.
6. Tamanho da amostra
for n in [10, 30, 80]: estimativas = simular_medias(massas, n=n) sns.kdeplot(estimativas, label=f"n = {n}")plt.axvline(mu, color="black", linestyle="--")plt.xlabel("Média amostral (g)")plt.legend()plt.show()
Compare o erro padrão empírico com a fórmula:
for n in [10, 30, 80]: empirico = simular_medias(massas, n=n).std(ddof=1) teorico = sigma / np.sqrt(n)print(f"n={n:>2}: empírico={empirico:6.1f} | σ/√n={teorico:6.1f}")
Ao aumentar \(n\), as distribuições ficam mais estreitas sem mudar substancialmente de centro. A proximidade entre os valores empíricos e \(\sigma/\sqrt n\) confirma a queda do erro padrão na razão inversa da raiz do tamanho amostral.
7. Uma amostra maior pode continuar enviesada
Agora selecionaremos apenas pinguins Gentoo, embora o parâmetro ainda seja a média de todas as espécies.
massas_gentoo = penguins.loc[ penguins["species"] =="Gentoo", "body_mass_g"].to_numpy()aleatorias = simular_medias(massas, n=30)enviesadas = simular_medias(massas_gentoo, n=30)print(f"Centro das amostras aleatórias: {aleatorias.mean():.1f} g")print(f"Centro das amostras Gentoo: {enviesadas.mean():.1f} g")print(f"Parâmetro de interesse: {mu:.1f} g")
Centro das amostras aleatórias: 4201.6 g
Centro das amostras Gentoo: 5072.9 g
Parâmetro de interesse: 4201.8 g
NotaInterpretação
A distribuição obtida apenas com Gentoo pode ser estreita e, ainda assim, ficar sistematicamente afastada do parâmetro de todas as espécies. Mais observações reduzem variância; não corrigem uma regra de seleção que representa a população errada.
Igualar a derivada a zero fornece \(\theta=\bar x\); a segunda derivada é \(2>0\), confirmando o mínimo. Para a perda absoluta, a inclinação é negativa quando há mais observações à direita e positiva quando há mais à esquerda. Ela cruza zero nas medianas.
NotaInterpretação
A perda quadrática cresce rapidamente com erros grandes e atinge o mínimo na média. A perda absoluta cresce linearmente e é minimizada pela mediana; por isso, ela é menos dominada pelo valor extremo de 6.100 g.
8.1 Quando a direção do erro também importa
As perdas anteriores são simétricas: errar duas unidades para baixo ou para cima produz o mesmo custo. Isso nem sempre representa o problema real. Se \(a\) é a estimativa e \(x\) é o valor real, definimos o erro por
\[
e=a-x.
\]
Assim, \(e<0\) significa subestimação, \(e>0\) significa superestimação e \(e=0\) significa acerto. Suponha que uma subestimação custe três vezes mais que uma superestimação de mesma magnitude. Uma perda possível é
Por exemplo, \(L(-2)=12\), enquanto \(L(2)=4\). A magnitude do erro é a mesma, mas sua consequência não é.
Considere agora os três valores \(1\), \(2\) e \(3\). Sob perda quadrática simétrica, o centro ótimo é a média, \(a^*=2\). Com a perda assimétrica acima, um candidato entre \(2\) e \(3\) superestima os valores \(1\) e \(2\), mas subestima o valor \(3\). Portanto, sua perda total é
O resultado está de fato no intervalo usado na derivação, \(2<a<3\). A solução se desloca acima da média porque estimativas baixas ficam mais expostas ao erro que recebeu peso três. O procedimento aceita alguma superestimação adicional para reduzir subestimações mais caras.
NotaInterpretação
A melhor estimativa não depende apenas dos dados. Ela depende também da função de perda, que traduz as consequências de cada decisão. Sob perda quadrática assimétrica, o ótimo é chamado de expectil; a média é o caso simétrico.
O MSE combina viés e variância: \(\operatorname{MSE}=\operatorname{viés}^2+\operatorname{variância}\). Assim, o melhor estimador depende da distribuição e da perda adotada; robustez pode compensar uma pequena perda de eficiência quando há caudas ou valores extremos.
10. Investigue
Troque n=20 por n=10, n=50 e n=100. O que muda?
Restrinja a população a uma única espécie. Qual estimador tem menor MSE?
Adicione valores extremos a 5% das amostras. A média continua vencendo?
Compare o resultado usando perda absoluta em vez de quadrática.
Explique por que aumentar \(n\) reduz variância, mas não corrige seleção enviesada.
Fonte
Gorman, K. B.; Williams, T. D.; Fraser, W. R. (2014). Ecological Sexual Dimorphism and Environmental Variability within a Community of Antarctic Penguins. Dados distribuídos sob licença CC0 e disponibilizados no Kaggle em parulpandey/palmer-archipelago-antarctica-penguin-data.
Guia teórico consolidado das Aulas 08 e 09
Parâmetro, estimador e estimativa
O parâmetro é uma característica fixa da população ou do processo gerador. O estimador é uma regra aleatória aplicada à amostra. A estimativa é o valor observado dessa regra em uma amostra específica. A distribuição amostral descreve como o estimador variaria se repetíssemos o desenho de amostragem.
Um estimador é não viesado quando \(\mathbb E[\widehat\theta]=\theta\), consistente quando se aproxima de \(\theta\) à medida que \(n\) cresce e preciso quando sua variância é pequena. Erro padrão é o desvio-padrão da distribuição amostral; não é o desvio-padrão dos indivíduos.
Métodos para construir estimadores
Depois de definir o parâmetro de interesse, ainda precisamos escolher uma regra para estimá-lo. Há diferentes princípios de construção. Eles podem produzir a mesma fórmula em um problema simples, mas partem de objetivos distintos e podem divergir em outros modelos.
Método dos momentos
Um momento é um resumo de uma distribuição. O primeiro momento é \(\mathbb E[X]\); momentos de ordens maiores ajudam a descrever dispersão e forma. O método dos momentos iguala momentos teóricos, que dependem dos parâmetros, aos momentos calculados na amostra.
Se um modelo possui média \(\mathbb E[X]=\mu\), igualamos
Isso fornece \(\widehat\mu_{MM}=\bar x\). O objetivo é encontrar parâmetros que façam características importantes do modelo coincidir com características dos dados. O método costuma ser simples e transparente, mas não garante, por si só, o estimador de menor variância.
Máxima verossimilhança
A máxima verossimilhança começa com um modelo probabilístico \(f(x\mid\theta)\). Para dados independentes, a verossimilhança é
Aqui, \(x_1,\ldots,x_n\) são os dados observados, \(\theta\) é o parâmetro candidato e \(f(x_i\mid\theta)\) mede a compatibilidade da observação com o modelo. O método escolhe
Seu objetivo é encontrar o valor do parâmetro sob o qual os dados observados são mais compatíveis com o modelo assumido. A verossimilhança não é a probabilidade de \(\theta\): os dados ficam fixos e comparamos diferentes valores do parâmetro. A Aula 18 desenvolverá esse princípio com mais cuidado.
Minimização de uma perda ou de um critério
Outra possibilidade é escolher diretamente o valor que minimiza uma penalização:
em que \(a\) é um valor candidato e \(L(a,x_i)\) é o custo de representar \(x_i\) por \(a\). Sob perda quadrática, o ótimo é a média; sob perda absoluta, é a mediana. O objetivo aqui é alinhar a estimativa ao tipo de erro relevante para a decisão. Mínimos quadrados, estudados posteriormente em regressão, seguem essa lógica.
Por que os métodos às vezes concordam?
Para estimar a média de um modelo Normal, a média amostral aparece por três caminhos:
iguala a média teórica à média observada no método dos momentos;
maximiza a verossimilhança Normal;
minimiza a soma dos erros quadráticos.
Essa coincidência não torna os princípios equivalentes. O método dos momentos busca compatibilidade entre resumos; máxima verossimilhança usa o modelo probabilístico completo; mínima perda formaliza o custo dos erros. Em outros problemas, eles podem gerar estimadores diferentes.
NotaInterpretação
Antes de comparar estimadores, pergunte qual parâmetro está sendo estimado, qual modelo foi assumido e qual critério definiu a regra. “Como calcular” e “por que essa regra é adequada” são perguntas diferentes.
Há ainda outros princípios. Na estimação bayesiana, por exemplo, combinamos a verossimilhança com uma distribuição a priori e resumimos a distribuição a posteriori segundo uma perda. Essa abordagem não será formalizada nesta aula.
Perda quadrática e média
Para escolher um centro \(a\) pela perda quadrática,
O fator \(1/n\) muda a escala, mas não o ponto que minimiza a soma. A função não é diferenciável nos dados. Fora desses pontos, cada observação à esquerda contribui inclinação \(+1\) e cada observação à direita contribui \(-1\). A inclinação muda de negativa para positiva quando há ao menos metade das observações de cada lado: essa é precisamente a condição de mediana.
Quando avaliamos um estimador \(\widehat\theta\) em amostragens repetidas, usamos a versão populacional
O MAE permanece na unidade original do parâmetro e penaliza erros linearmente. Ele costuma ser menos dominado por erros extremos do que o MSE. Em contrapartida, não admite a decomposição simples em variância mais viés ao quadrado que veremos a seguir.
Risco, viés e variância
Sob perda quadrática, o risco de \(\widehat\theta\) para estimar \(\theta\) é
Aqui, \(\theta\) é o parâmetro fixo, \(\widehat\theta\) é o estimador aleatório e a esperança considera todas as amostras que poderiam ser obtidas pelo mesmo procedimento. Para decompor o erro, escreva
O primeiro termo mede a oscilação do estimador em torno de seu próprio valor esperado. O segundo é o viés, pois \(m-\theta=\mathbb E[\widehat\theta]-\theta\). Elevando ao quadrado e tomando a esperança,
O MSE separa duas fontes de erro. A variância mede quanto a estimativa muda entre amostras; o viés mede quanto o centro dessas estimativas fica afastado do parâmetro. O termo cruzado não é ignorado: ele é exatamente zero porque os desvios em torno do próprio valor esperado têm média zero.
Um pequeno viés pode ser aceitável se reduzir bastante a variância. A melhor escolha depende da população, da perda e do custo dos erros. Robustez descreve sensibilidade à contaminação; a mediana possui ponto de ruptura muito maior que a média, enquanto a média aparada oferece um compromisso.
O desenho não é curado por n
Aumentar \(n\) reduz variabilidade aleatória, mas não corrige viés de seleção, mensuração inadequada ou dependência ignorada. Propriedades algébricas do estimador só têm valor quando a amostra representa o alvo da pergunta.
Questões de revisão das Aulas 08 e 09
Ao repetir amostras aleatórias, o que varia: o parâmetro, o estimador ou a estimativa?
Por que aumentar \(n\) não corrige uma amostra formada apenas por Gentoo quando o alvo inclui todas as espécies?
Quais centros minimizam, respectivamente, perda quadrática e perda absoluta?
Como um estimador com viés pequeno ainda pode apresentar MSE alto?
Respostas comentadas
O parâmetro permanece fixo, o estimador é a regra e a estimativa obtida varia entre amostras.
Mais dados reduzem a variância em torno da média de Gentoo, mas não corrigem a população representada.
A média minimiza perda quadrática; a mediana minimiza perda absoluta.
Porque \(\operatorname{MSE}=\operatorname{viés}^2+\operatorname{variância}\) e a variância pode dominar.